Bangu, Terra de Sangue Quente e Alma Inquebrável.

Bangu, ó terra queimada de sol e memória,
onde o tempo caminha devagar por entre trilhos antigos e corações calejados.
Teu nome, forte como o som de um tambor ancestral,
ressoa entre montanhas silenciosas e ruas barulhentas,
como se cada pedra tua tivesse algo a contar,
e tem.
Foste chão de senzalas e suor,
mas também berço de liberdade e de luta.
Nas tuas entranhas ainda pulsa o eco das correntes rompidas,
e a alma do teu povo — branca, indígena, negra, mestiça, vibrante —
se levanta todos os dias contra o esquecimento.
De teus campos brotaram trabalhadores,
e também ideias, versos, revoltas e canções.
Bangu, onde o sol escaldante não queima mais que a paixão de teus filhos.
Onde a fumaça que sobe das lajes se mistura ao cheiro do feijão na panela,
e o grito do vendedor se entrelaça com o canto das igrejas e com os batuques das esquinas e a algazarra da folia.
Teu caos não é abandono — é sobrevivência em estado bruto.
E se a violência tenta se impor como sinônimo,
nós respondemos com arte, com fé, com futebol,
com a delicadeza de quem sabe sorrir com os olhos,
mesmo quando o mundo nos olha com desconfiança.
Entre tua poeira e tuas palmeiras ergue-se o Bangu Atlético Clube,
glorioso em 1933, heróico em 1966,
com o manto rubro escarlate que veste o sonho de um povo esquecido pelos mapas,
mas jamais apagado pela história.
Cada gol marcado é uma vitória contra o cinismo,
cada partida vencida é um hino não escrito da tua dignidade.
Tu és mais que bairro — és epopeia.
Uma cidade dentro da cidade,
com teus próprios códigos, teus heróis invisíveis,
teus profetas de esquina,
tuas matriarcas de avental e oração.
És a lavadeira e o doutor, o camelô e o pastor,
és o grito abafado de quem teve que calar
e a esperança teimosa de quem insiste em ficar.
Bangu é o cheiro da terra depois da chuva,
o gosto do caldo quente servido com generosidade,
é o riso que nasce mesmo quando o mundo está desabando.
És o lugar onde os meninos jogam bola descalços,
mas sonham alto, como se o céu fosse logo ali,
acima do Morro da Figueira ou por trás da Colônia,
num horizonte que ninguém mais consegue ver — só quem vive aqui.
E quando dizem que aqui não há futuro,
erguemos nossos olhos, cansados mas orgulhosos,
e respondemos com o silêncio de quem já viu demais pra precisar gritar.
Bangu não grita — resiste.
Não se curva — reinventa-se.
E eu, filho do teu pó e do teu fogo,
declaro com alma inteira:
não há exílio que me arranque de ti.
Porque em ti aprendi a cair e levantar,
a amar sem garantias, a crer quando tudo faltava.
Tu és minha raiz, minha estrada, meu altar,
meu país secreto escondido na zona oeste,
onde a dor e a beleza caminham de mãos dadas,
e a vida floresce,
apesar.
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