Rei no Palácio e Tirano no Palanque: Paes, seus ‘calados’ e a Câmara de Vereadores.
Eduardo Paes está chateado. Está impaciente. Está bufando pelos corredores do Palácio da Cidade porque, veja só, os vereadores — esses meros figurantes do seu reality show urbano — resolveram exercer suas funções. Que ousadia, não é mesmo? O prefeito do Rio, esse personagem cada vez mais caricato de si mesmo, parece genuinamente ofendido com a existência da separação entre os poderes. Alguém deveria avisar: a prefeitura não é um reinado, e a Câmara não é sala de espera do gabinete imperial.
O prefeito vive num universo paralelo, onde tudo gira em torno do seu humor matinal e da sua capacidade de soltar frases cortantes com ar de gestor moderno. Só que, de moderno, Paes tem apenas o Wi-Fi. A alma continua coronelista, intolerante e pavio curto. Se fosse personagem de série, seria o “rei do centro expandido” — cercado de bajuladores, arrogante com o povo e incapaz de ouvir um “não” sem subir o tom e revirar os olhos.
Quem não se lembra do episódio vergonhoso em que ele, ainda prefeito com ares de dono da cidade, mandou a então subprefeita Talita Galhardo calar a boca em público? A cena foi digna de um déspota em crise de autoridade. Destratou, humilhou, levantou o dedo, como quem diz: “Aqui quem manda sou eu, e se você não gostou, a porta da rua é serventia da subprefeitura.” Pois bem. Hoje ela é vereadora. E ele continua o mesmo: deselegante, descompensado e cada vez mais convencido de que discordar dele é crime de lesa-majestade.
Não bastasse esse histórico, agora resolveu atacar a Câmara Municipal porque — pasme — os vereadores não têm votado com a rapidez que Sua Alteza exige. Segundo ele, a cidade não pode esperar. Mas curiosamente, pode esperar por ônibus climatizados, por BRT funcionando, por estações decentes, por segurança básica… Ah, mas se o atraso for dos vereadores, aí sim temos uma crise institucional! Paes quer pressa. Mas só quando lhe convém.
E o que dizer da sua pérola mais recente: ao ser contrariado, soltou um “o mandato do vereador Flávio Valle não importa”. Olha só. O prefeito eleito, com a mesma legitimidade popular, diz que o mandato de outro representante do povo “não importa”. Parece que o poder subiu mesmo à cabeça. Daqui a pouco, vamos ter que pedir audiência agendada e beijar o anel antes de discordar dele.
A cidade, enquanto isso, segue afundada em buracos, cercada por criminalidade, espremida no transporte falido que ele prometeu revolucionar. A única coisa que tem funcionado em alta velocidade são as postagens performáticas no Instagram e os ataques verbais a qualquer um que ouse sair do script de palmas.
Eduardo Paes é um político que parece mais preocupado em se sentir o alfa da cidade do que em ser o servidor público que deveria ser. Tratar adversários como inimigos, colegas como subordinados e servidores como escada para seu ego não é postura de líder — é postura de chefe autoritário mal resolvido. Fosse ele menos vaidoso e mais gestor, o Rio já teria saído do colapso funcional em que se encontra.
Mas não. Prefere gastar energia brigando com vereadores, desrespeitando mulheres, e espalhando arrogância como confete em baile fora de época. O cidadão carioca não precisa de um rei melindrado, precisa de um prefeito que trabalhe sem fazer birra.
Aliás, se Eduardo Paes se sente tão impaciente com a Câmara, talvez seja a hora de ele rever seu apreço pela democracia. Porque sim, prefeito, discordar de você é parte do jogo. E no tabuleiro da democracia, não é o rei quem dá xeque-mate sozinho — é o povo que derruba o tabuleiro quando cansa de ser tratado como súdito.

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